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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

MORTE




 

                                      Se a vida fosse fracionada em dias da semana acho que já estou “de quarta para quinta-feira”. A conta é lógica: considero dez anos por dia e limite de setenta anos. Evidente que o cálculo é para efeito de raciocínio, nada tendo a ver com baliza em somente setenta anos. Explico, porque não quero ninguém bravo!

 

                                      Pois bem, se estou na quarta-feira, estou bem. Não que seja o melhor dia, mas está muito longe de ser o pior, ainda mais quando estou vivendo a clara expectativa da quinta-feira (um dos melhores) e chegar à sexta-feira, mesmo que o sábado, para todos os efeitos, seja o “dia final”.

 

                                      Desta perspectiva e toda movimentação pensei: qual o melhor dia para morrer? Sob a ótica da solidariedade e do número de transeuntes ou ainda do volume de carros         vinculados ao evento, entendo que morrer num domingo é péssimo, pois a notícia não se propaga tanto. Não duvidem que para muitos é importante e para outros tantos isso (pessoas e carros) indica “quem era e o que representava o ora “deitado” aos olhos da sociedade. Por isso, aquela história de que “era muito querido” ou talvez “não era tanto” é também uma questão matemática.

 

                                      Voltando ao dia. Não, acho melhor deixar tudo como está, mesmo que a grande maioria, na tradição, escute menos rádio quando saem da rotina.

 

                                      Mas, pelo menos o sol poderia comparecer.

 

IMPEDIMENTO

 

                                      Não, não se trata de uma regra de um jogo de futebol. Aqui o jogo é outro, mais complexo e muito mais nefasto.

 

                                      O alardeado impeachment da Presidente da República, com o pontapé inicial dado por alguém que é tudo menos alguém com crédito para tanto, encheu os olhos daqueles que, apesar dos evidentes interesses pessoais, politiqueiros, veem tal ideia como a salvação da lavoura.

 

                                      Não há questionamentos quanto a constitucionalidade e possibilidade do trânsito da medida. Entretanto, chega a dar pena os renovados gritos gagos de quem a propaga e se revela como o sustentáculo da ignorância cimentada.

 

NO FIM

 

                                      Pode chegar vestida de cetim, em qualquer lugar esperando por mim.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

FALÊNCIA




 

                                      Deputado Ibsen Pinheiro em coluna publicada esta semana, começa assim: Um juiz federal proibiu a lama do Rio Doce de chegar ao mar, e enquanto nos perguntávamos como se comportariam as águas, se obedientes ou revoltas, eis que, em seguida, um juiz estadual liberou-as, também liminarmente, num conflito de competência que ainda não se encerrou antes que a instância superior decida quem tem razão, o rio ou o mar. Vai sobrar para a pororoca amazônica.

 

                                      Aí, pensei: se as águas não obedecerem eventualmente o comando judicial, como será materializado o crime de desobediência ou aplicada multa?

 

                                      A esdrúxula situação traduz de maneira figurada o caos que o Poder Judiciário estacionou. Propaga-se, e com razão, a falência do sistema de saúde, dos hospitais, dos atendimentos, das filas, mortes, etc. Contudo, a falência da dinâmica que traduz a prestação jurisdicional é tão pior quanto, talvez superior. Vamos fixar num exemplo muito simples: acreditar que uma simples petição (um pedido) demore um ano para ser anexado aos autos do processo, para que, após, seja levado ao magistrado, é a materialização da falência total também deste sistema.

 

                                      Existe carência em todos os sentidos e de maneira especial de material humano. Não há servidores suficientes, sendo de uma ingenuidade monumental esperar que estagiários, apesar de sempre muito solícitos, engajados e que na maioria das vezes realizam atividades até mesmo que superam suas obrigações ordinárias, possam suprir o trabalho de um servidor concursado e tecnicamente preparado para enfrentar as nuances específicas e particulares da profissão.

 

                                      Mais ainda, vivemos uma nova realidade com a implantação do processo eletrônico, onde se outrora os escritórios sempre estavam vinculados exclusivamente a questões externas como as contábeis, hoje tudo necessita de técnicos em informática, de programadores, de um pronto socorro eletrônico vinte e quatro horas.

 

                                      Por isso, além da dita falência do sistema como um todo, tal nova realidade exclui mais do que inclui, tornando o alardeado caos uma consolidação definitiva.

 

                                      Ao par disso, a máquina esta preocupada em “proibir ou garantir” o curso do rio para o mar!

 

NO FIM

 

                                      Para o mundo, outra vez, que eu quero descer.  

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O PEQUENO E O GRANDE




 

                            A dicotomia entre o pequeno e o grande, ou entre a pequenez e a grandeza, pode também balizar o enfrentamento de situações mundanas. Ou seja, o aspecto pode indicar isso e também aquilo, se é que me entendem.

 

                            Geralmente o pequeno tem em sua essência o nada. Seu campo de ação é exclusivo. Utiliza-se oportunistamente de situações criadas para, como ventríloquo, atacar, pouco sabendo ele que seu eco não passa de metro da sua boca.

 

                            Já o grande, o verdadeiro, pelo contrário, se apresenta como pequeno e por isso torna-se maior ainda. O grande sabe que é grande. Sabe que não precisa de nada além de ser aquilo que ele é.

 

                            Isso tudo faz parte da natureza, o que, todavia, não descaracteriza um ou outro, somente faz com que os pequenos fiquem menores e os grandes, que são pequenos nos atos, ainda maiores.

 

 

TRAGÉDIAS

 

                            Dois atos distintos: terrorismo (Paris), planejado, premeditado e com o objetivo único de aterrorizar; imprudência, negligência e ganância (Minas Gerais), somado ao descaso e resposta da natureza. Ambos terríveis e de consequências devastadoras. Um não anula o outro, pelo contrário, de certa forma se cruzam. Portanto, evitar "escalas de tragédias" e classificação para emprestar solidariedade, fazendo disso uma "competição" é no mínimo falta de bom senso, para não dizer mais nada.

 

NO FIM

                            Um aperto de mãos pode derrubar muros.                           

 

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O JOGO DE XADREZ




 

                            Harry personagem de Hesse enquanto homem abriu mais uma porta: nela estava o guia para formação da personalidade. O jogo de xadrez e todas as suas peças traduziam uma forma, depois outra e outra, sempre reorganizando conjuntos diferentes, formados por uma multidão de egos.

 

                            A personalidade, assim, se moldava de forma gradual conforme as peças produziam conjuntos diferentes. Seguindo os relacionamentos, portanto, a personalidade se reorganizava.

 

                            Evidente que na brincadeira do jogo, pensei: então duas personalidades é uma vantagem, pois somente precisamos cuidar de um hemisfério restrito (!).

 

                            O que não faz um feriado em uma segunda-feira!

 

FILHOS

 

                            Minha filha Carol faz uma homenagem ao seu pai em rede social e escolhe a música Meu amigo Pedro. Adorei, por exatamente tudo. Só fiquei intrigado, para todos os efeitos, com o “usa sempre o mesmo terno...”. Espetáculo!

 

                            Também fui homenageado de maneira muito especial, como o foi a anterior, com a feitura agora pela Thaís de um burrito, clássico, saboroso e extraordinariamente fiel ao original. Faltou, por circunstâncias e por falta de ação deste que escreve, a torta de limão, que, por isso, permanece como cena do próximo capítulo.

 

                            Por fim, o Micka, que já se revelou um gourmet nada ortodoxo e essencialmente competente, nos presenteou com um escondidinho de charque, com o aipim dando as cartas de maneira eficaz.

 

                            Nesta seara, para quem se especializou em falquejar todos com uma boa música e, por outro lado, tem resumido os dotes culinários no arroz com calabresa, acho que fui bem.

 

                            São os egos e o jogo de xadrez.

 

NO FIM

 

                            Abraço forte para aqueles (surpreendentemente muitos) que nesta semana disseram-me ler com frequência esta coluna.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

OLHAR




 

                            Ouvi, não faz muito: a maioria dos medos não resiste à luz do dia. Já foi dito e reiterado: tudo termina no medo; ou tudo começa? Não sei. Só sei que o medo sempre esteve no comando e regula a marcha da imensurável maioria.

 

                            Entre pequenas inserções naquilo que tudo combina, mesmo com limão e açúcar, o que queima nos apresenta fatal. Não há como fugir.

 

                            Tenho medo dos deputados que viajam (e dos que autorizam a viagem) e trazem bacalhau na mala, além de outros produtos de muambeiro; tenho medo de deputados que votam a favor de um projeto de lei que escancara o calote, o golpe e lança um verdadeiro tiro mortal na população, limitando mais uma vez o valor das requisições de pequeno valor (RPV); tenho medo dos deputados que corporativistas encontram formas de livrar um colega de ser cassado, nada obstante ter cometido diversos crimes, mesmo que estes sejam corriqueiros na casa; tenho medo de governantes que sistematicamente se utilizam do terrorismo, como a ameaça de parcelamento dos vencimentos do funcionário público, como moeda de troca para o aumento de tributos; tenho medo de governantes ou legisladores que utilizam os microfones num dia, com gritos contra todo o tipo de corrupção e imediatamente no dia seguinte são lançados como réus. Tenho medo de tanta coisa!

 

                            Mas inegavelmente tenho muito mais medo do silêncio. Daquela inércia, proposital ou deliberada, que traz no egoísmo seu cavalo de batalha. Naquilo em que tudo o “eu” supera o “nós”. Não há como negar.

 

                             Enfim, até já acho que importa pouco a luz do dia, a luz da lua. Talvez o que valha é naturalmente não se ter medo da liberdade, apesar desta muitas vezes cobrar um preço caro demais.

 

 

NO FIM

 

                            Pense!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

CHUVA E SOL




 

                            Enfrentarei hoje todas as intempéries. Escalarei reto, os degraus íngremes desta escada escorregadia. Superarei o último obstáculo. Sentarei para sorrir.

 

                            Tenho convivido com pessoas deslocadas. Não no sentido de autoexclusão, timidez, recolhimento estratégico, etc., mas na linha do caráter, da lealdade e de maneira especial da gratidão.

 

                            Conversando, ou melhor, escrevendo na forma ortodoxamente usual da atualidade (leia-se WhatsApp), num grupo de pensadores etílicos e que também gostam de chá de boldo, chegamos a uma conclusão tão evidente quanto a certeza de que a Igreja Católica nunca fala sério quando abre espaços democráticos: as pessoas são essencialmente más! Confesso que fiquei chocado com isso. Não, não se trata de ingenuidade, mas sim de acreditar que a boa-fé é a regra. Ainda acredito, mas um pouco menos.

 

                            Se as pessoas são naturalmente más e, repito, parafraseando sempre, se Deus está morto tudo é permitido, o que nos resta?  O que deve ser perseguido? Não consigo aceitar que a vaidade comande quase tudo. Não posso acreditar que a escada, a mesma já citada, seja pavimentada também com pessoas, com ossos e com sangue. Não, não, não, isso não está acontecendo!

 

                            Lembro-me da sutileza nos ensinamentos empíricos dos humildes. Das casas recheadas de imagens, coladas sob a madeira mal cuidada, desgastada, quase desmanchando. O ambiente é humano. As pessoas devem igualmente ser e são. São casas.

 

                            Vejo também misérias muito ricas. Misérias cerebrais, estomacais e também humanas. Neste momento não quero ser uma pessoa humana. Quero ser algo inanimado, uma porta, talvez uma pedra ou ainda diferente como um vulto escondido dentro da imaginação.

 

                            Não quero mais ver a escala quando chegar para sorrir.

 

NO FIM

 

                            Desalento é muito mais do que tudo isso.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

FALEI QUASE TUDO




 

                            Em idas e vindas todo o cuidado é pouco. A preocupação maior, disse um sábio, deve ser quando se deve (ou não) baixar os faróis.

 

                            Na lição, Einstein, contrapondo Newton, afirmou: a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma persistente ilusão…”. Ou seja, o passado foi presente que foi futuro que um dia se tornou passado. Nossa!

 

                            Sabemos que para os físicos a repartição do tempo não existe. Aliás, considerando a velocidade da luz como “ponto zero”, qualquer ação em movimento faz com que o tempo passe mais devagar, mesmo que tal constatação seja tão ínfima que pareça ilusória também.

 

                            Portanto, se bem entendi, a velocidade imprimida, além de retirar o “tempo do tempo” levará a “ganhar tempo” sobre o tempo biológico da inércia. Agora sim, me perdi!

 

                            O fato é que, diante disso, efetivamente não haverá o tempo e, portanto, a tripartição entre passado, presente e futuro. Tudo não passa, ao final, da grande dita ilusão.

 

                            De tais premissas, chego a uma conclusão e um encaminhamento: se a inércia leva a “perder tempo”, precisamos nos mexer; e encaminho a questão para aqueles que, de alguma forma, lutam para justificar que o ócio traz o ganho. Digo, somente, e acalmem-se, quanto ao tempo. Porque sei que poucas coisas são mais prazerosas que uma rede na varanda.

 

                            Mas tudo vale pouco, pois o foco são os faróis baixos na encruzilhada. Quando usá-los?

 

NO FIM

 

                            Não tenho mais tempo, mas tenho muito tempo.

 

                             

 

                           

 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

ESCOLHA




 

                            A sabedoria popular ensina: se ganha a corrida no atá-la. Muito provavelmente não seja tudo isso ou sempre tudo isso, mas que o primeiro ato baliza os seguintes, para um lado ou para outro, disso não tenho dúvidas.

 

                            O problema é que as escolhas sempre são muito difíceis. Ao lado delas caminham as renúncias, as quais teimam em nos incomodar cada vez mais. O verbo incomodar talvez não seja o mais apropriado. Mas, seguramente, um importante desconforto surge quando a escolha é posta à mesa. Afunila ainda mais quando temos certeza de que no ato precisamos analisar todas as consequências e assim optar, e acertar, para que lado será a saída.

 

                            A vida é uma constante escolha. As pessoas são nossas escolhas; escolher é um exercício pleno da consciência. Não gostaria mais de escolher. 

                           

POR QUE A SEGUNDA XÍCARA DE CAFÉ NUNCA É IGUAL A PRIMEIRA?

 

                            Não sei. Definitivamente não sei se acontece só comigo. A primeira xícara de café é saborosa, quente e forte. A segunda, mesmo que bebida com idêntico entusiasmo, nunca se manifesta igual.

 

                            Confesso que nunca entendi tal lógica (mesmo que só minha). Será que o fato é estendido aos contornos de nosso cotidiano? Mas qual o motivo do fenômeno não se manifestar com o chá?

 

                            São muitas dúvidas, as quais por certo não passam somente pela mão do barísta, mesmo que clássico.

 

                            Provavelmente seja porque simplesmente não gosto muito de café!

 

                            Do que é feito o pensamento?

NO FIM

 

                            Já foi dito: abraços aos meus vizinhos que estão sempre ao meu lado.

                           

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O MAPA




 

                            Um dos primeiros poemas que tive interesse foi O Mapa de Mário Quintana. Aliás, também foi um dos primeiros que procurei entender e até decorar. Se hoje a memória teima em trair-me, à época tinha ainda bons espaços disponíveis.

 

                            Este rico material de nosso maior poeta conduz a exatamente outro. A uma das frases emblemáticas e que nunca pereceu: “Quem disse que eu me mudei? Não importa que a tenham demolido: A gente continua morando na velha casa em que nasceu”.  

 

                            Portanto, meus amigos, seguindo quem deve ser seguido, a velha casa é a nossa morada. O mapa não passa de folha levada no vento da madrugada.

 

GENTE

 

                            Dentro do mapa também está localizada a parte de qualquer forma desfavorecida. Quer seja sob o âmbito intelectual, moral, econômico ou de caráter.

 

                            Com isso não se tem mais nada. Somente e talvez o instinto, como o velho de Hemingway, em sua luta com o mar.

 

                            Navegamos todos e a bússola nem sempre conduz aos pontos desejados. Aqueles, os realmente piores, não conseguem manter a linha que divide efetivamente o que merece ser considerado: a vida.

 

NO FIM

 

                            O nada em tudo pode ser absolutamente o tudo em virtude do nada.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

CALLE DE LOS SUSPIROS




 

                                      Uma palavra qualquer, dentro da animação daqueles que por isso se animam, pode fazer nascer um conjunto (des) ordenado de palavras que se apresentam como um texto; uma frase, um conto ou simplesmente palavras.

 

                                      A escrita não se sustenta sem a experiência. Não há como escrever sem expressar o sentimento vivido, porque, sem tal matéria prima, apesar de possível, a honestidade das palavras se restringirá ao campo essencialmente teórico, que inevitavelmente comprometerá o sentido de tudo. Por isso, não há ficção no sentido literal.

 

                                      Na Rua dos Suspiros, mantida no interior do querido Uruguai, precisamente em Colonia Del Sacramento, solidifica exatamente a verdadeira matéria prima para o escritor. Lá, e não mais do que lá, está o local onde seu nome indica a reação orgânica talvez mais verdadeira na escala das reações verdadeiras.

 

                                      Como dar o nome de uma rua como “dos suspiros”? O que isso quer dizer? Alívio ou incômodo? Trajeto para a morte? Finalização ou recomeço? Simples adeus?

 

                                       A rua é alimentada pelas teorias e pelas lendas, as quais mantidas lançam o combustível necessário para a imaginação, sem desnudar o próprio sentido daquela vida.

                                     

                                      Para entender (ou tentar), será preciso tirar a poeira dos demônios interiores e pensar na instigante imperfeição que se materializa na harmonia de sua forma. A forma! A imperfeição! Os demônios!

 

                                      Os suspiros são eternos. Mas, os diamantes também o são. Não há conflito. É físico e é psíquico. Nada é eterno.

 

                                      Não sei o certo qual a razão dos “suspiros”. Faz tempo que lá não vou; faz muito que ele teima em não voltar; porém, faz muito mais tempo que estou a sua procura.

 

NO FIM

 

                                      A rua é disforme e estreita.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

TRÊS




 

                            Todos são três: a mãe, o padre e a vereadora. Poderiam, e até foram, um só, mas isso já faz tempo, mesmo que este, o tempo, como parte do supremo poder, regule quase nada.

 

                            Todos estiveram em muitos lugares, até mesmo juntos algumas vezes, mas nada alterou a origem de tudo. O marco zero começa agora.

 

                            A mãe parece comandar a maioria das ações; talvez pense assim e que na prática a realidade divirja, o que torna os assuntos desde o início instigantes, surpreendentes e até estimulantes.

 

                            O padre, do qual se conhece quase nada, por si já é importante. Recebe muito e só pode dizer pouco, talvez um pouco mais do pouco. Como deve ser, recepciona, mas não consegue, ou não pode ver e ser recepcionado. As dificuldades, por isso, são potencializadas.  

 

                            A vereadora possivelmente é quem está mais “amarrada”. Não poderá haver exposição. Todos olham. Todos são fiscais.

 

                            No hipotético encontro, previamente combinado, em local público, todos vieram sozinhos e com roupas normais. Não que isso seja anormal, mas importante já que tratamos de tudo e de todos.

 

                            A mãe, como sempre aconteceu, chegou selvagem e intensa, despejando inclusive arremedos de boas vindas e recursos verbais até então não conhecidos. O padre, sensato como todo o praticante de liturgias, de maneira incomum permaneceu calado. A vereadora, até esboçou uma reação, mas também permaneceu incólume, ao menos até aquele momento.

 

                            O padre, para não perder o hábito, literalmente, sugeriu que tudo iniciasse com o sinal da cruz. A vereadora não pensou e o fez. A mãe, por sua vez, lembrando-se de alguém que conheceu recentemente e que aguçou tanto a intensidade como a sua natureza selvagem, e primitiva, lascou: prefiro começar com uma pergunta: todos somos fingidores? E acrescentou: se é somente a verdade que liberta, sairemos algum dia da prisão?

 

                            A vereadora olhou para o relógio. A mãe para os lados e o padre finalizou: acho que precisamos de um auxílio etílico!

 

                            Todos saíram, com a certeza de que irão voltar.

 

NO FIM

 

                            Esquentar o frio e o gelo.

SCALDERAI




 

                           

                            Não aprecio muito pensar nas colaborações como prêmio; nos alcaguetes; X9 ou na popular “delação premiada”. Isso me leva inevitavelmente aos porões escuros que alimentam os reacionários.

 

                            A entrega ou a delação remonta, somente para os desavisados ou simplesmente desconhecedores, das Ordenações de Felipe, também conhecidas como Filipinas, que foi a base para do direito brasileiro. Ou seja, o negócio não é de hoje!

 

                            Claro que não se trata de um expediente antijurídico, todavia sua utilização (forma e método) recente e aos quatro ventos indica uma quebra de paradigma no sistema jurídico penal. O dispositivo constitucional que garante presunção de inocência é substituído pela presunção de culpa. Todos são culpados até que provem o contrário! Bingo!

 

                            A questão é: prender (nada de anormal); manter a prisão até que o preso diga o que se está pretendo que ele diga. Leia-se: pretensão de quem investiga e de quem acusa. Aí a “porca torce o rabo”.

 

                            Que fique claro: não há qualquer defesa aos indiciados ou já culpados em primeiro julgamento. O que indica a clara inversão da ordem jurídica são os meios para que o eco da confissão venha na forma de gritos gagos. A prisão não é exceção, como toda deveria ser até o juízo condenatório final. A prisão se tornou um meio para conseguir driblar o direito de defesa. E isso, amigos, está fora da ordem jurídica.

 

                            Vejam que a indagação é estritamente jurídica, absolutamente diversa do grau de inocência ou de culpa.

 

                            Aliás, guardadas as proporções da comparação, na ditadura militar as torturas eram o meio considerado mais eficaz (e era mesmo) para confissões ou “colaborações premiadas”.

 

                            Não disse nada sobre a igual e evidente incompatibilidade territorial para que todos os julgamentos da operação que “limpa tudo”, bem como o show pirotécnico alimentado pela imprensa, a qual, sem qualquer dúvida, também faz sua parte.

 

NO FIM

 

                            Tenho receio de tudo isso.

 

FORA DE CONTROLE




 

 

                            Recebo um “whats” (quem hoje não recebe) de uma colega da capital do estado que retrata um episódio emblemático de nossa realidade: caminhando pelo bairro Bom Fim, por volta das 17h da última terça-feira, quando a poucos metros percebe uma movimentação, correria e tiros, muitos tiros. Imediatamente vê às pessoas se jogarem ao chão, desesperadas, apavoradas, sem saber o que acontecia. Somente que o que acontecia era muito grave.

 

                            Ela, num instinto, se joga para dentro de um bar e se posiciona atrás de um freezer. Muitos tiveram a mesma ideia, enquanto os tiros continuavam intensos.

 

                            Após o resultado de tudo, viu um homem caído, baleado na cabeça e nas costas, praticamente ao seu lado, sendo a fuga dos atiradores que entraram em conflito com um policial a paisana que passava pelo local continuava algumas quadras dali.

 

                            Para quem conhece o bairro sabe da movimentação neste horário. Nada disso, contudo, faz qualquer diferença nesta guerra civil. Não há local. Todos os locais são locais para o estabelecimento e consolidação dos atos criminosos. Inclusive com circulação de balas.

 

                            As pessoas, disse-me ela, estavam atônitas. Crianças, idosos, pessoas comuns, que voltavam do supermercado, de uma corrida ou simplesmente de um passeio, minha amiga que estava indo à aula, todos, circularam ao lado da morte.

 

                            Pensar que, além do crime estar hoje tão comum quanto escovar os dentes, os policiais estão aquartelados; sem receber seus vencimentos. Os professores em greve, como a maioria dos servidores públicos deste estado falido. Os servidores da SUSEPE, com razão, porque também sem receber, deixam de realizar o serviço comum nos presídios. Audiências judiciais são prejudicadas. O crime se avoluma.

                            Tudo para dizer que “o sacrifício é de todos”, apesar de que “todos” não incluem o legislativo e o judiciário; talvez porque estes não façam parte do “todos”.

 

                            Tudo para justificar aumento de ICMS, privatizações, etc., num claro sinal de que tudo resta invertido, tudo está fora de controle.

 

                            Não há soluções e nem perspectivas.

 

NO FIM

 

                            O “pior” é que vai “piorar”.

ANDARILHO




 

                            Disse Nietzsche: “Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a terra – e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe”.

 

                            Quantas vezes fomos andarilhos de nós mesmos; errantes do deserto, conhecedores de noites e dias ruins! Quantos de nós se desprendeu da meta, do objetivo, do pragmatismo, ou mesmo do ponto de chegada!

 

                            Muitos, por certo, nesta ordem, fizeram como o poeta, disse Fernando Pessoa, que não passa de um fingidor, que finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.

 

                            O andarilho é um poeta. É aquele que caminha para o nada em busca do tudo. É sim e também aquele que na dor persegue entreter a razão.

 

BAR 52

 

                            Ainda não fui, mas já senti o clima. Ambiente, música, bebidas e também comida de altíssima qualidade. Estou ansioso para conhecer o Bar 52, do meu amigo Álvaro.

 

                            Lembrei que talvez possa voltar os ares, apesar das épocas diferentes, do antigo Kandeeiro (com “k” mesmo, ao que lembro), embaixo do Clube Comercial; do Água Viva, em cima da atual loja Por Menos, ou mesmo de anteriores e posteriores que fizeram a noite lagoense brilhar sobre a áurea boêmia; sobre os cantos que encharcaram mágoas, alegrias, vidas. Sobre doses que alimentaram a paixão, sobre tudo aquilo que somente um bar, uma mesa e um balcão de bar poderá responder.

 

                            Parabéns ao Álvaro, esposa e colaboradores.

 A DOR LIDA

 

                            Começo e termino com Pessoa, para que na dor lida sentem bem. Não há escalas. Existe sim razão e algumas vezes até coração.

 

NO FIM

 

                            Para você eu tiro o meu chapéu.