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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

VIAGEM




 

                            O caminho seria longo, todos sabiam. Os objetivos e pretensões, apesar de já pensados, ainda mantinham a expectativa do desconhecido. Enfim, tudo começou.

 

                            Fisicamente os três lançaram seus pés na estrada, enquanto um, talvez mais de um, o que não se pode definir ao certo, continuaram longe, apesar de estarem de toda forma juntos.

 

                            A ideia no início é percorrer todo o trajeto em vinte cinco ou até em trinta dias. Há uma logística quanto ao ritmo, o método, as paradas, a alimentação e, especialmente, quanto ao objeto maior de tudo aquilo: discutir e questionar.

 

                            Quando são dados os primeiros passos, com o corpo estimulado e no estado da partida, fisicamente tudo flui como imaginado. A marcha é acelerada, não faltam assuntos e os goles d´água nem fazem tanta diferença assim. Todas as primeiras horas assim se mantêm.

 

                            Passado o tempo, ainda sob um sol nervoso, porém já dando sinais de um abandono iminente, a primeira indagação: “você acredita em Deus?”

 

                            Alguém respondeu: claro! Acredito numa força superior e porque esta também é o sentido e razão de tudo, além de que a vida não pode ter surgido do nada.

 

                            Foi dito, por outro, parafraseando Lennon: “Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor”.

 

                            A noite já chegava feroz, dando sinais e ares de crueldade. Parados agora, em silêncio, também foi dito: “foi Deus que criou o homem ou foi o homem que criou Deus?”.

 

                            Criação ou criatura, evolução, espécie, origem, nada parava, mesmo que o sentimento em si traduzisse nada mais do que todos os objetivos alinhavados para que tudo estivesse ali, daquela forma.

 

                            A caminhada vai continuar.

 

NO FIM

 

                            Todos os caminhos levam a si mesmo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

ERAM TODOS




 

                            Estavam reunidos no mês do “cachorro louco” todos aqueles que também estiveram juntos no inverno de 95. Quase todos com menos cabelos e mais barriga. A única unanimidade é que ninguém parecia ser mais o mesmo.

 

                            Tudo caminhava de maneira ortodoxa e ordinária até que Justino, no alto de sua proficiência poética, lascou: alguém mudou sua predileção sexual? Foi um espanto geral. Houve um silêncio ensurdecedor. Carlinha deixou cair o copo. Martino correu para o banheiro. Todos atônitos, até que Pedrinho, filho da Marucha e Natanael, disse: o que é predileção? Todos respiraram, por um momento, aliviados.

 

                            Amélia, que era a professora de todos, por isso também a mais experiente naquele reencontro, disse que Justino só poderia ter visto a consolidação de sua loucura, da qual ela nunca duvidou, para fazer uma pergunta daquelas. Acrescentou: ele precisa de ajuda.

 

                            Patrícia, que sempre foi a musa do grupo, deu uma leve risadinha com um pequeno movimento do lábio inferior e cutucou Japinha: acho que a noite promete!

 

                            Justino, mesmo para desconforto de alguns, continuou. Disse que não estamos mais em 1995 e que 20 anos são duas gerações e isso leva novas perguntas.

 

                            Antes que alguém pudesse frear o ímpeto e tentar de alguma forma se oferecer para levar Justino passear, começou a tocar no pen drive, que ninguém sabia de quem era, Dolores Duran e a música Por Causa de Você. Todos se olharam, mesmo aqueles que não queriam. Ninguém mais falou. “Entre, meu bem, por favor; não deixe o mundo mau lhe levar outra vez; me abrace simplesmente; não fale, não lembre, não chore, meu bem....”.

 

                            Amélia, que não mais ouvia direito, porém sabia tudo, perguntou se era Maysa. Pedrinho disse que a profe já tinha falado a palavra preconceito na escola. Patrícia continuava ao telefone. Matino não apareceu mais. Marucha convidou o marido para irem embora.

 

                            Justino, que já ultrapassava a sexta dose, pensou em voz alta: deveria ter colado mais.

 

NO FIM

 
                            Tudo caminha.