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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

SOBRE VINHOS




                            Enquanto ainda podemos livremente escrever sobre as nuances da vida, nossas posições e predileções, estamos livres. A concordância, ou não, é exatamente o sentido de todos poderem se expressar e conjuntamente evoluir. Tirando a fauna e a flora, podendo agregar a tudo o privilégio da natureza que nos rodeia, não sobra muita coisa. Muito provavelmente quase nada.

                            No limiar da tolerância, lá no último degrau, já no estágio onde tentamos nos convencer que é preciso sempre considerar, respeitar as opiniões diversas, o contraponto, há também um limite. E este é intransponível.

                            Em mais uma dessas noites primaveris, onde o vento ainda gélido teima em não deixar ninguém sossegado ao banho do luar, pesquisando sobre as carreiras de minha estante de livros, encontro farto material, depositado por anos, que permaneceu num espaço pouco visitado. Estava lá em posição idêntica àqueles países que lutam para conseguir uma simples medalha de bronze durante toda uma olimpíada. Ou seja, apesar do conteúdo de suma importância, estavam adormecidos, como que praticamente material de museu.

                            Entretanto, como qualquer região propensa a vulcões, temporais ou tsunamis, eles emergem do quase nada para o praticamente tudo. Eles estão de volta. E pior: avalizados.

                            Realmente, até sob outros vieses, 1968 não acabou. Zuenir Ventura ensinou. Não aprendemos. Somos espécie que enfrentará um longo passado pela frente. Virou clichê. Virou realidade. Como a marcha de carnaval inversa, este é um país que não vai para frente.

                            Ah, o vinho! Bebericava naturalmente um prazeroso tinto. Nada extraordinário, à exceção da clareza do reflexo que os títulos das obras revisitadas emergiam sob a taça. Outrora, o tinto era tão denso que essa luz não penetrava.  Não era possível então ultrapassar. Não havia mais obras. Não havia mais reflexo.

NO FIM

                            E isso que era um Tannat.

PEPE



                            Nesta semana assisti o filme Uma Noite de 12 anos, o qual retrata a história real do período em que José Alberto Mujica ou simplesmente Pepe Mujica, juntamente com mais dois amigos, passaram nos calabouços então existentes no Uruguai.

                            Pepe, pertencente ao grupo Tupamaros, o qual lutava contra a ditadura no país vizinho, foi recolhido primeiramente ao cárcere. Logo em seguida passou de preso à refém do Estado. E a partir de então, em tal condição, experimentou doze anos de sua vida sendo transferido entre calabouços. Estava preso, mas não era somente um preso.

                            Dentro do Estado de Direito e dentro de um Estado Democrático, a lei deve ser cumprida. Acho que com isso todos concordamos. Cometido um crime, seu protagonista deverá ser punido. A punição poderá ser o cárcere. Agora a punição poderá ser a sistemática degradação do ser humano? A tortura, os choques nas genitálias; a extração de dentes sem anestesia; pau de arara; ausência de comida, de água ou mesmo local para fazer as necessidades básicas, é cumprir pena?

                            Não se trata de propagar a impunidade. Longe disso. Criminoso terá que pagar sua dívida com a sociedade. A regra é essa. Agora ultrapassar os limites impostos pela lei, torna os torturadores tão criminosos quanto o próprio criminoso.

                            Bom, enquanto se tratar dos outros, tudo bem! Agora se isso acometer “um dos nossos” um dia, talvez possamos mudar de ideia. Talvez.

                            Pepe ficou 12 anos como um refém. Não enlouqueceu por intervenção de sua mãe, que lhe procurou muito tempo entre as “prisões” até que finalmente o encontrou. Deu-lhe de presente um simples penico, utensílio que ajudou a salvar a sua vida. Uma coisa qualquer ou um ato singelo, para quem não tem nada, nem dignidade, pode ser tudo. Até ser utilizado como um vaso de flores.

NO FIM

                            Enquanto em nós não doer, a dor alheia será somente mais uma dor.



DOUTOR JOÃO PEREIRA NETO




                            A semana termina com tristeza. Faleceu meu amigo e colega Dr. João Pereira Neto. Vinha há algum tempo lutando em mais uma causa, certamente uma das mais importantes de sua vida, que foi combater a enfermidade que o acometeu.

                            O Dr. Pereira sempre foi um advogado na essência do termo. Otimista, corajoso, inteligente, perspicaz, reunindo os predicados todos que o fizeram um jurista respeitado.

                            Seu terreno preferido, confessou-me certa vez, era o direito criminal. De maneira especial o Tribunal do Júri, de onde por vezes desfilou suas teses articuladamente preparadas para combater injustiças e buscar o bom direito.

                            Era daqueles tribunos à moda antiga, clássicos. Daqueles com capacidade incomum de emocionar pela disposição de uma frase ou uma simples palavra. Daqueles, meus amigos e amigas, advogados que talvez não existam mais.

                            Tinha igualmente um lado humano ímpar. Lembro-me, como prova disso, que iniciando na profissão, e isso lá se vão anos, encontrei o Dr. Pereira pelos corredores forenses ainda da Av. Afonso Pena e ele, numa gentileza incomum, passou a discorrer palavras de estímulo para aquele iniciante, observando em cada frase a riqueza da profissão que escolhemos. Nunca mais esqueci.

                            Sempre falava de sua esposa e, sobretudo, de seus filhos. Tinha orgulho de que todos seguiram a carreira jurídica e vinham galgando sucesso. Foi um pai apaixonado.

                            Falamos diversas oportunidades sobre ser advogado e especialmente o ser em nossa Cidade. Contou-me diversas passagens, algumas incríveis, outras hilárias, sendo então uma das memórias vivas da história forense de Lagoa Vermelha e região. Conversamos, juntamente com seu Filho, Dr. Luiz Fernando, sobre catalogar e de alguma forma registrar tudo. Não conseguimos nos encontrar para fazer isso.

                            A vida é sim um sopro. É como um livro. Temos as páginas iniciais e as finais. Fechamos o livro e está encerrado. Porém, para pessoas como o Dr. Pereira o legado sobreporá ao encerramento das páginas. Ficará sim vivo no coração de seus familiares e amigos.

                            Sempre gostei muito dele.

NO FIM

                            Minha solidariedade aos familiares. Faço, pedindo licença, em nome do amigo Dr. Luiz Fernando.