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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

CALLE DE LOS SUSPIROS




 

                                      Uma palavra qualquer, dentro da animação daqueles que por isso se animam, pode fazer nascer um conjunto (des) ordenado de palavras que se apresentam como um texto; uma frase, um conto ou simplesmente palavras.

 

                                      A escrita não se sustenta sem a experiência. Não há como escrever sem expressar o sentimento vivido, porque, sem tal matéria prima, apesar de possível, a honestidade das palavras se restringirá ao campo essencialmente teórico, que inevitavelmente comprometerá o sentido de tudo. Por isso, não há ficção no sentido literal.

 

                                      Na Rua dos Suspiros, mantida no interior do querido Uruguai, precisamente em Colonia Del Sacramento, solidifica exatamente a verdadeira matéria prima para o escritor. Lá, e não mais do que lá, está o local onde seu nome indica a reação orgânica talvez mais verdadeira na escala das reações verdadeiras.

 

                                      Como dar o nome de uma rua como “dos suspiros”? O que isso quer dizer? Alívio ou incômodo? Trajeto para a morte? Finalização ou recomeço? Simples adeus?

 

                                       A rua é alimentada pelas teorias e pelas lendas, as quais mantidas lançam o combustível necessário para a imaginação, sem desnudar o próprio sentido daquela vida.

                                     

                                      Para entender (ou tentar), será preciso tirar a poeira dos demônios interiores e pensar na instigante imperfeição que se materializa na harmonia de sua forma. A forma! A imperfeição! Os demônios!

 

                                      Os suspiros são eternos. Mas, os diamantes também o são. Não há conflito. É físico e é psíquico. Nada é eterno.

 

                                      Não sei o certo qual a razão dos “suspiros”. Faz tempo que lá não vou; faz muito que ele teima em não voltar; porém, faz muito mais tempo que estou a sua procura.

 

NO FIM

 

                                      A rua é disforme e estreita.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

TRÊS




 

                            Todos são três: a mãe, o padre e a vereadora. Poderiam, e até foram, um só, mas isso já faz tempo, mesmo que este, o tempo, como parte do supremo poder, regule quase nada.

 

                            Todos estiveram em muitos lugares, até mesmo juntos algumas vezes, mas nada alterou a origem de tudo. O marco zero começa agora.

 

                            A mãe parece comandar a maioria das ações; talvez pense assim e que na prática a realidade divirja, o que torna os assuntos desde o início instigantes, surpreendentes e até estimulantes.

 

                            O padre, do qual se conhece quase nada, por si já é importante. Recebe muito e só pode dizer pouco, talvez um pouco mais do pouco. Como deve ser, recepciona, mas não consegue, ou não pode ver e ser recepcionado. As dificuldades, por isso, são potencializadas.  

 

                            A vereadora possivelmente é quem está mais “amarrada”. Não poderá haver exposição. Todos olham. Todos são fiscais.

 

                            No hipotético encontro, previamente combinado, em local público, todos vieram sozinhos e com roupas normais. Não que isso seja anormal, mas importante já que tratamos de tudo e de todos.

 

                            A mãe, como sempre aconteceu, chegou selvagem e intensa, despejando inclusive arremedos de boas vindas e recursos verbais até então não conhecidos. O padre, sensato como todo o praticante de liturgias, de maneira incomum permaneceu calado. A vereadora, até esboçou uma reação, mas também permaneceu incólume, ao menos até aquele momento.

 

                            O padre, para não perder o hábito, literalmente, sugeriu que tudo iniciasse com o sinal da cruz. A vereadora não pensou e o fez. A mãe, por sua vez, lembrando-se de alguém que conheceu recentemente e que aguçou tanto a intensidade como a sua natureza selvagem, e primitiva, lascou: prefiro começar com uma pergunta: todos somos fingidores? E acrescentou: se é somente a verdade que liberta, sairemos algum dia da prisão?

 

                            A vereadora olhou para o relógio. A mãe para os lados e o padre finalizou: acho que precisamos de um auxílio etílico!

 

                            Todos saíram, com a certeza de que irão voltar.

 

NO FIM

 

                            Esquentar o frio e o gelo.

SCALDERAI




 

                           

                            Não aprecio muito pensar nas colaborações como prêmio; nos alcaguetes; X9 ou na popular “delação premiada”. Isso me leva inevitavelmente aos porões escuros que alimentam os reacionários.

 

                            A entrega ou a delação remonta, somente para os desavisados ou simplesmente desconhecedores, das Ordenações de Felipe, também conhecidas como Filipinas, que foi a base para do direito brasileiro. Ou seja, o negócio não é de hoje!

 

                            Claro que não se trata de um expediente antijurídico, todavia sua utilização (forma e método) recente e aos quatro ventos indica uma quebra de paradigma no sistema jurídico penal. O dispositivo constitucional que garante presunção de inocência é substituído pela presunção de culpa. Todos são culpados até que provem o contrário! Bingo!

 

                            A questão é: prender (nada de anormal); manter a prisão até que o preso diga o que se está pretendo que ele diga. Leia-se: pretensão de quem investiga e de quem acusa. Aí a “porca torce o rabo”.

 

                            Que fique claro: não há qualquer defesa aos indiciados ou já culpados em primeiro julgamento. O que indica a clara inversão da ordem jurídica são os meios para que o eco da confissão venha na forma de gritos gagos. A prisão não é exceção, como toda deveria ser até o juízo condenatório final. A prisão se tornou um meio para conseguir driblar o direito de defesa. E isso, amigos, está fora da ordem jurídica.

 

                            Vejam que a indagação é estritamente jurídica, absolutamente diversa do grau de inocência ou de culpa.

 

                            Aliás, guardadas as proporções da comparação, na ditadura militar as torturas eram o meio considerado mais eficaz (e era mesmo) para confissões ou “colaborações premiadas”.

 

                            Não disse nada sobre a igual e evidente incompatibilidade territorial para que todos os julgamentos da operação que “limpa tudo”, bem como o show pirotécnico alimentado pela imprensa, a qual, sem qualquer dúvida, também faz sua parte.

 

NO FIM

 

                            Tenho receio de tudo isso.

 

FORA DE CONTROLE




 

 

                            Recebo um “whats” (quem hoje não recebe) de uma colega da capital do estado que retrata um episódio emblemático de nossa realidade: caminhando pelo bairro Bom Fim, por volta das 17h da última terça-feira, quando a poucos metros percebe uma movimentação, correria e tiros, muitos tiros. Imediatamente vê às pessoas se jogarem ao chão, desesperadas, apavoradas, sem saber o que acontecia. Somente que o que acontecia era muito grave.

 

                            Ela, num instinto, se joga para dentro de um bar e se posiciona atrás de um freezer. Muitos tiveram a mesma ideia, enquanto os tiros continuavam intensos.

 

                            Após o resultado de tudo, viu um homem caído, baleado na cabeça e nas costas, praticamente ao seu lado, sendo a fuga dos atiradores que entraram em conflito com um policial a paisana que passava pelo local continuava algumas quadras dali.

 

                            Para quem conhece o bairro sabe da movimentação neste horário. Nada disso, contudo, faz qualquer diferença nesta guerra civil. Não há local. Todos os locais são locais para o estabelecimento e consolidação dos atos criminosos. Inclusive com circulação de balas.

 

                            As pessoas, disse-me ela, estavam atônitas. Crianças, idosos, pessoas comuns, que voltavam do supermercado, de uma corrida ou simplesmente de um passeio, minha amiga que estava indo à aula, todos, circularam ao lado da morte.

 

                            Pensar que, além do crime estar hoje tão comum quanto escovar os dentes, os policiais estão aquartelados; sem receber seus vencimentos. Os professores em greve, como a maioria dos servidores públicos deste estado falido. Os servidores da SUSEPE, com razão, porque também sem receber, deixam de realizar o serviço comum nos presídios. Audiências judiciais são prejudicadas. O crime se avoluma.

                            Tudo para dizer que “o sacrifício é de todos”, apesar de que “todos” não incluem o legislativo e o judiciário; talvez porque estes não façam parte do “todos”.

 

                            Tudo para justificar aumento de ICMS, privatizações, etc., num claro sinal de que tudo resta invertido, tudo está fora de controle.

 

                            Não há soluções e nem perspectivas.

 

NO FIM

 

                            O “pior” é que vai “piorar”.

ANDARILHO




 

                            Disse Nietzsche: “Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a terra – e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe”.

 

                            Quantas vezes fomos andarilhos de nós mesmos; errantes do deserto, conhecedores de noites e dias ruins! Quantos de nós se desprendeu da meta, do objetivo, do pragmatismo, ou mesmo do ponto de chegada!

 

                            Muitos, por certo, nesta ordem, fizeram como o poeta, disse Fernando Pessoa, que não passa de um fingidor, que finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.

 

                            O andarilho é um poeta. É aquele que caminha para o nada em busca do tudo. É sim e também aquele que na dor persegue entreter a razão.

 

BAR 52

 

                            Ainda não fui, mas já senti o clima. Ambiente, música, bebidas e também comida de altíssima qualidade. Estou ansioso para conhecer o Bar 52, do meu amigo Álvaro.

 

                            Lembrei que talvez possa voltar os ares, apesar das épocas diferentes, do antigo Kandeeiro (com “k” mesmo, ao que lembro), embaixo do Clube Comercial; do Água Viva, em cima da atual loja Por Menos, ou mesmo de anteriores e posteriores que fizeram a noite lagoense brilhar sobre a áurea boêmia; sobre os cantos que encharcaram mágoas, alegrias, vidas. Sobre doses que alimentaram a paixão, sobre tudo aquilo que somente um bar, uma mesa e um balcão de bar poderá responder.

 

                            Parabéns ao Álvaro, esposa e colaboradores.

 A DOR LIDA

 

                            Começo e termino com Pessoa, para que na dor lida sentem bem. Não há escalas. Existe sim razão e algumas vezes até coração.

 

NO FIM

 

                            Para você eu tiro o meu chapéu.