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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

SENHORAS


                            Estavam em duas. Uma em sua cadeira de balanço; outra em sua cadeira. Ambas conversavam pelo tempo e para o tempo. Trocavam curtas palavras. Não se alteravam em qualquer momento, com exceção daquele assunto ainda pendente após mais de 40 anos. Estavam bem e isso se sobressaia.
                            Nenhuma tinha aprendido às artes manuais, como o tricô ou o crochê. Passaram a vida admirando; contando sobre quem difundia tal conhecimento; adquirindo peças incríveis. Porém, nenhuma tinha qualquer material desta linha feito por si. De certa forma, sem dizerem, havia uma pequena frustração.
                            A tarde avançada no ritmo de sempre. A preocupação era quando ou se algum dos netos passaria, mesmo correndo, hoje, pela casa. E se viessem? O que teria para comer? Um bolo, talvez! Não. Não daria tempo.
                            Àquela, sentada na cadeira, se mostrava mais triste. Não havia motivo aparente. Estava até razoavelmente bem de saúde. Mas algo lhe angustiava. Não queria falar. Sempre foi discreta. Até mesmo porque nem sabia o que estava sentindo.
                            A outra, da cadeira de balanço, aparentava, como sempre, mais alegria. Claro, uma alegria interna, representada por pequenos espasmos nos lábios. Queria viver. Precisava continuar sua caminhada. Estava viva, e muito viva. Não poderia esta tarde ser somente mais uma.
                            A tarde passou e nada aconteceu contrariamente ao que sempre tinha acontecido. Cada uma foi para sua casa esperando ao novo e ordinário encontro no dia seguinte.
                            No outro dia, no mesmo local, horário, cadeiras, estava ao assento somente aquela que nunca gostou do balanço. A outra, sua irmã, soube-se depois, não tinha vindo. Nunca mais veio.
                            Passados dias, sentada na de balanço, com um aperto da saudade machucando muito, pensou naquele assunto e, sem esboçar qualquer reação, apertou às mãos e teve a certeza que tudo era muito pequeno.
NO FIM
                            Não deixe ficar tarde.
                                     


                            

TIETA


                            Já que passamos por “tempos não muito sérios”, nada mais atual do que o remake da novela Tieta.
                            Alguns, dentro do meu universo de 17 eleitores, devem estar achando engraçado este tema. Porém, como dito acima, a obra de ficção baseada em Jorge Amado, é uma tradução refeita e recorrente de que nada é essencialmente uma ficção. Tudo ao final se baseia na realidade, quer seja histórica, quer seja do momento.
                            O grande balcão de negócios que leva a prostituição (com todo respeito a tal profissão) da política no patamar mais alto da nação é ao final um circo nos moldes de uma novela.
                            O Presidente é rejeitado por 94% da população e alguns afirmam que os outros 6% não devem ter entendido a pergunta. Mas, não. Entenderam sim! É que eles (os 6%) fazem parte da estrutura nuclear do que é mais danoso no ser humano, a partir da corrupção e dos benefícios, agregando a hipocrisia, maldade e vaidade.
                            Alguém realmente acredita no Presidente desta República? Você faria um negócio com o Presidente da República? Você votaria nos deputados que sustentam o mandatário da nação, após, renovadas e recorrentes rodadas de negociação? Aqui em nosso estado eles são bem conhecidos e estão dentro dos principais sustentadores da chamada “tropa de choque”. Mais um clichê atualíssimo.
                            Realmente a denúncia contra o Dick não irá passar os muros da Câmara dos Deputados. O STF não restará autorizado a dar seguimento ao que foi denunciado pelo Procurador-Geral da República. E sabem por quê? Porque a verdade e os fatos comprovados não interessam. O que realmente interessa é o nefasto, o desonesto e o impublicável.
                            Neste circo; nesta novela, os palhaços, todos sabemos, quem são.
NO FIM
                            É o fim mesmo.




GELADO


                            Para quem, como eu, sofre imensamente com o frio vai entender. E não falo só em acordar cedo; passar o dia encarangado; ter um choque térmico a cada deslocamento dentro de casa; não conseguir que o cérebro funcione; usar camisa, blusa, casaco, manta, luva e fazer todas as promessas para que as mãos e os pés descongelem antes do meio-dia, sabem definitivamente o que estou dizendo.
                            Quando entramos em julho com aquele calorzinho; camisa de manga curta; praticando atividades sem sofrer e ao ar livre, pensei, com a cabeça de quem já experimentou experiências similares, que algo forte estava para vir. Vem a notícia da nevasca histórica no Chile. As imagens indicam que nada seria fácil nas horas seguintes. E não foi.
                            Para todos aqueles que de alguma forma conseguem dignamente enfrentar estas temperaturas extremas, ficam conversas de bar. Entretanto, para os outros, aqueles que a casa não possui aquecimento de qualquer maneira; que o companheiro seja provavelmente um pequeno fogão à lenha, o qual teimará, muitas vezes sem sucesso, em fazer frente às correntes que ultrapassam paredes mal acabadas. Ou, ainda, para aqueles que nem mesmo isso tem, permanecendo ao relento de viadutos, rodoviárias, becos, ruelas, etc., a abordagem mundana será diferente.
                            Nunca acreditei no ditado de que “o frio é dado conforme o cobertor”. Não é verdade. Às pessoas suportam e de alguma maneira conseguem vencer pelo compartilhamento da dor experimentada e que recorrentemente corta a pele. Não é verdade que aos pés descalços, com um agasalho maltrapilho e presenteado por alguém que o descartou, remonte uma dignidade ou que tudo isso suporte esta dor. O frio não é diferente para ninguém. O sentimento sim.
                            A reflexão é necessária. A ação, sem holofotes ou página na mídia, é uma riqueza maior. Mas, está valendo o altruísmo de qualquer forma. Ajudem, sempre que possível.
NO FIM
                             Aqueçam seus corações.








UMA HORA DESSAS


                            Estava ele sentado em sua cadeira de balanço com um livro nas mãos, cuja leitura teimava em finalizar. Nada excepcional. À exceção remontava em seu conflito com o tempo. Em outras épocas tudo era cadenciado dentro do dinamismo. Hoje, pensava ele, tudo é muito dinâmico, porém nada mais é cadenciado.
                            Continuava sua leitura, sem esquecer que o livro também fora escolhido pelo “tamanho das letras”, porque isso o relacionava de toda sorte com o tempo. Pensou em pular algumas páginas, na clara imaginação de que sua ambição estava finalmente vencendo o seu talento. Recuou. Acho melhor seguir em frente.
                            Virava a cadeira conforme o sol lhe afetava. Pensou no protetor solar, já que sua pele hoje necessitava de tais bloqueadores como seus dentes do creme dental. Não lembrou se havia passado. Cheirou sua pele e não ficou satisfeito. Dispersou a leitura por um instante com o pensamento de que deveria buscar seu protetor. Olhou para frente, um pouco longe, e pensou nos dez lances de escada que teria que vencer para chegar ao banheiro. E lá, neste momento, teria que procurar o produto. Hesitou. Achou melhor ficar e tentar afastar a cadeira um pouco, para que ao menos sua face ficasse protegida.
                            Os remédios! Lembrou. Estava esquecido se os tinha tomado. Os matutinos. Não sei. E agora? Se os tomasse novamente algum efeito “muito nocivo” haveria?
                            Ao mesmo tempo, em que surgiam recorrentes conflitos naturais para quem já tinha gravitado em muitas águas, viu um pássaro pousar à sua frente. Despretensioso e corajoso. Permaneceu inerte; olhando fixamente para o movimento da cadeira sem fazer a mínima menção de que dali sairia. O homem, que apesar do tempo solar e quente, calçava meias e um calçado revestido de lã, fazendo contraponto a uma das suas companhias de sempre, os pés frios, fez um pequeno gesto, talvez para provocar ou simplesmente esperar a reação daquela visita. O pássaro olhou mais uma vez, como o fazem rapidamente, dando-lhe a impressão de um pequeno cumprimento e voou, para o infinito, como, aliás, todos seguirão.
NO FIM
                            Aos amigos.
                           

         

LENHAS E PLANTAS


                            Conheço quase nada sobre elas. As lenhas. Em período de lareiras, retorno às análises para buscar a excelência do fogo, especialmente daquelas que o guardam e a nossa função fica resumida a empurrá-las na cronologia de seu desaparecimento.
                            De outro norte, esta semana trouxe meu amigo Paulo (Paulico) para fazer uma avaliação sobre algumas plantas, árvores e gramas que irei tratar de agora em diante. E para surpresa de um leigo clássico na matéria, ele, dentro das ideias que surgiam, disse-me que uma das plantas que deveríamos provavelmente retirar se chamava jasmim dos poetas, que é uma trepadeira que exala um perfume incrível.
                            Que se tratava de um jasmim até sabia. Mas que este é dos “poetas” foi realmente uma surpresa.
                            Sem ter a pretensão de um mergulho profundo na matéria, de imediato pensei na origem e no sentido do nome, que traz em seu âmago uma relação direta da natureza e da poesia. Achei incrivelmente singular, especialmente quanto aos sentidos envolvidos. A espécie não é só voltada ao paisagismo visual e aromático. Tem em seu nome a poesia e dela, peço licença, para dizer isso.
                            Realmente aprendemos a toda hora. A beleza e a simplicidade gravitam ao nosso redor. A madeira queimada sob olhares atentos do personagem ao seu redor é a certeza da companhia estando sozinho. O jasmim, que também é dos poetas, elencam a forma diversa de chegar ao mesmo lugar: não estamos sozinhos.
                            Nunca tinha realmente prestado atenção na poesia do jasmim. Hoje, passando pela planta, já enxergo de outra forma. O quê será da poesia? Sinto o aroma sem a ver florescida. Como tudo muda com o conhecer. Como o sentimento é nosso caminho.
NO FIM
                            Vou procurar mais razões para isso.