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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

DIAS CINZENTOS


                           
                            Sete de setembro quase sempre foi chuvoso, ventoso e até frio. A preparação para o desfile que acontecia à época trazia grande expectativa e ansiedade. Todos iríamos nos apresentar para o público. As praças e avenida principal estavam sempre lotadas. Amigos, parentes, conhecidos, desconhecidos. Era sempre uma grande festa.

                           Marchar era obrigatório. Não havia negociação, como, aliás, tudo o que envolvia àquele período. Nós, estudantes, gostávamos muito do evento. Não cabia às crianças, por obviedade, a discussão e análise sob a natureza de tudo aquilo. A nós simplesmente o evento traduzia uma confraternização e uma forma de, naqueles cinzentos dias, estarmos artistas.

BRIGA E FRONHAS

                            Um fato que chama atenção é o conflito de beleza. Lembro dos personagens de um programa humorístico, quando ainda havia programa humorístico decente, que qualquer conflito era resolvido numa “briga com travesseiros” onde voavam penas para todos os lados.

                            Entre “mortos e feridos” sobrava sempre para o travesseiro e a fronha. Que tempos!

COHIBA

                            Passei a me interessar mais sobre um puro, especialmente os cubanos.
                            Especificamente nem tanto pela sua genuína utilização, mas, sobretudo, pela liturgia eu envolve este prazer deveras cultuado e apreciado.
                            Expressões como:  long filler e short filler, passaram a conviver comigo mais assiduamente. Falaremos mais sobre isso.

NO FIM

                            Como estamos todos sempre marchando, continuamos neste dia simbólico no mesmo ritmo.



  

UM SENTIDO


                            Tudo estava lindo. Poucas nuvens no céu e uma brisa agradável. Os pássaros cantavam e circulavam em seu ritmo natural. Os comerciantes abriam seus estabelecimentos na expectativa de um proveitoso dia. Os bares já acolhiam os circulantes para o desjejum. As pessoas apressadas iam e vinham em todos os sentidos. Enfim, a vida seguia em sua forma mais genuína naquela pequena cidade.

                           Porém, o que ninguém esperava, aconteceu! Talvez dizer que “ninguém esperava” era mais uma vontade sobre a realidade. Mas, o certo é que aconteceu.

                            Quando tudo veio à tona o assunto se tornou obrigatório. Não se falava outra coisa. Até no sermão da missa dominical o mesmo foi tratado; de forma constrangida, sim. Todavia, todos também sabiam que não poderia ser diferente diante daquele assunto.

                            A gravidade se potencializava com o passar dos dias, das tardes, das horas, até que chegou inevitavelmente e finalmente em quem seria o maior interessado naquela celeuma toda.

                            A sensação de uma morte anunciada pairava por todos os cantos. Um certo momento até o tempo parou. As folhas aparentavam não mais se mover, apesar daquela brisa. Os pássaros faziam algum barulho, mas que nada tinham a ver com o que sempre acontecia. As pessoas se moviam tensas, a partir da certeza de que tudo seria possível então.

                            Havia, contudo, um entre todos que se mantinha incólume, impassível e inalterado. Não tinha sido - certamente o único, contaminado com toda a áurea que bailava sobre os demais. Estava tranquilo e continuava sentado no mesmo banco de praça que sentava todos os dias. Inclusive nos dias cinzentos.

                            Foi quando, o dono do bar, angustiado e periclitante, em passos largos chegou até o mesmo banco e sentando abruptamente perguntou: você não soube ainda? E o outro responde: eu sempre soube de tudo.

                            A vida naquele lugar nunca mais foi a mesma.

NO FIM

                            Mistérios.




A VIDA E AS CHAVES


                            Nossa vida pode ser resumida também pelo número de chaves que possuímos ou portamos diariamente. Há chaves por todos os lados. Para entrar ou sair de casa; do carro; do trabalho; da garagem; de tudo. Isso sem contar as chaves eletrônicas, como os alarmes, por exemplo.

                            Quando perdi (ou ganhei) um tempo e passei a contar o número de chaves que trago comigo, fiquei pasmado! Senti o peso das chaves no bolso e as analisei com cuidado: são três para ingressar em tal lugar; mais duas para sair de outro; mais algumas para passar, ir e retornar, de outro, e assim por diante. Senti o peso delas em meu bolso. Fiquei com muitas indagações.

                            O mais difícil é encaixar todas na primeira pisada. Acertar no escuro só pelo tato. Sei, isso tudo é consequência de todos os novos tempos. E que tempos!

                            Se a vida é feita substancialmente também de chaves, então nem todas as portas estão abertas!

SOLIDARIEDADE

                            Não poderia deixar de registrar a solidariedade de inúmeras pessoas frente a fúria da natureza que culminou com a destruição de parte de nossa cidade. Foram muitos os voluntários que não mediram esforços no combate às consequências do evento sobre os mais necessitados. Parabéns pessoal!

COOKED

                            No Netflix passa um documentário chamado Cooked que é baseado em livro com o mesmo nome, escrito por Michael Pollan.
                            Trata essencialmente de culinária (sua importância), com enfoques a partir dos quatro elementos: fogo, água, ar e terra.
                            Assista e sua alimentação nunca mais será a mesma. Você certamente revisará e revisitará muitos de seus conceitos sobre comida. Acredite!

NO FIM

                            Força Lagoa Vermelha!





CÁLICE


                            Em tempos onde um resíduo qualquer, como um Bolsonaro, por exemplo, tem vez e voz e é até aplaudido por pessoas com senso mais que mediano, alguma coisa está realmente fora da órbita.

                           Não consigo entender, e aqui vai um dizer com total respeito que é devido aos pensadores contrários, como um cidadão desta natureza, reacionário, retrógrado, preconceituoso, maldoso, que empunha somente bandeiras que traduzem um pensamento que deveria estar sepultado, pode ter alguma ressonância.

                            Ao mesmo tempo, por oportunismo e muito também por ignorância, ainda se sustentam discussões sobre o extremo-direitismo de Hitler, sendo que alguns até dizem que seu pensamento era de “esquerda”. Podem acreditar que é verdade!

                            No conjunto e na linha dos que “calados são poetas”, conforme outrora dito, não olvidados que “calada a boca, resta o peito”, não é Chico? Vamos seguir na labuta.

                            Onde iremos parar?

LADO OCULTO

                            É mais simples concordar. É mais fácil não se envolver. É mais tranquilo deixar como estar. O sombrio, o desconhecido, também pode ser surpreendente. Para qualquer lado.

LADO B

                            A história como os discos de vinil, sempre tiveram predileções ao “lado A”. Porém, é no lado B, do disco e da história, onde se escondem todas as brincadeiras de dizer verdades.

                            Não podem ser subestimados.


NO FIM

                            Isso pode ser o “lado escuro da lua, quando vejo seu rosto em preto” (Pink Floyd).                  



NOITE E A CIDADE


                            A calada da noite traz dos bueiros quem ao sol não possui espaço para agir. Na calada da noite também os roedores e os que não têm sangue se apresentam para ação. A calada da noite é recorrentemente surpreendente. E perigosa!

                            Sabe-se que, ao menos empiricamente, que à noite todos os gatos são pardos, que a gripe se potencializará e que a febre será mais resistente.

                            Também é inegável que a ausência da luz fomentará os sentidos, especialmente alguns primitivos. A história registra que quase tudo é definido neste período. O nó da gravata deve ter mais cuidado e a mulher olhará no espelho mais vezes. A natureza teima em deixar suas formas.

                            Neste mesmo tempo, e período, busco analisar todos os contornos. Olho o movimento, pessoas, veículos, bancos de praça, ação do vento sob árvores, discussões, abraços, chegadas e partidas. Tudo isso sob uma avenida. Aliás, que fora antes tempo comparada com ruas em Paris. Talvez poucos saibam. Pode também não ser isso interessante.

                            Fixo nas pessoas. O vai em vem é sistemático e muitas vezes cronológico. Gerações passam por isso. Gerações circulam de maneira retangular há décadas. A forma é a mesma, com exceção dos veículos, marcas, sapatos e a cor do cabelo. Tudo é uma repetição.

                            O segredo pode estar nas paradas. Nos pequenos lapsos onde o raciocínio vence a rotina. Olhando assim, pode ser que a regra da noite não tenha tanta importância.

                            Não é quem somente bebe água que tem segredos a esconder.


NO FIM

                            Abraço.