Seguidores do Victor Hugo

Páginas

Total de visualizações de página

quarta-feira, 22 de agosto de 2012


ELEVADOR, A CONTINUAÇÃO

 

                            Foram muitos pedidos, até em número surpreendente diria, sem desconhecer, no entanto, que concentrados em duas ou três pessoas, o que naturalmente não retira a importância da postulação.

 

                            Lembro que estávamos depositados e presos dentro de um elevador, entre andares, num dia chuvoso, em ambiente aceleradamente quente, com os nervos iniciando um processo de afloramento intocável, no escuro e com a expectativa de permanecermos nesta condição por aproximadamente uma hora.

 

                            Passou esta hora. A vida se manteve exatamente como estava naquele local antes de tudo parar. O nôno sentou. O de gravata, aproveitando, como podem aproveitar alguém que está de gravata, e iniciando uma conversa com a senhora de óculos escuro, a qual se fixou entre os compromissos que seriam perdidos e a possibilidade de um café, um chá, uma caipirinha, uma taça de vinho, um chope, ou qualquer coisa possível após tudo isso ser vencido. A ascensorista, acostumada, aproveitou para adiantar a “dormidinha” diária. A do cachorro, que se apresentava a mais incomodada, dizia que ninguém se dava conta da gravidade da situação e que uma tragédia era iminente. Sugeriu uma reza.

 

                            O nôno concordou, mesmo que não reunisse mais forçar para levantar às mãos. A que estava preocupada com o destino dos seus bens, pegou o celular e ligou para o seu advogado. O de gravata já estava respirando o mesmo ar que a mulher de óculos escuros buscava trazer aos pulmões. A ascensorista começou a dizer palavras irreconhecíveis, mas que diziam respeito ao desrespeito ao direito de alguém descansar com os olhos fechados. A que “puxou a ajuda dos deuses” começou a chorar e a pedir ajuda divina neste momento de provação. Que todos eram pessoas boas. Que não poderiam ser eles os “escolhidos”.

 

                            O velho, mesmo fora do seu “andar”, do seu “longo andar”, observou que daquilo tudo poderia ser tiradas algumas conclusões, como: a vida é dura; elevadores para idosos deveriam ser individuais; que em momentos de emoção os sentimentos florescem de maneira mais honesta; e, por fim, que não permitiria, apesar de estar enxergando quase nada, qualquer atitude sexual dentro do elevador, pois seus anos, seus parcos cabelos brancos e, notadamente, sua visão de mundo deveria ser preservada.

 

                            A ascensorista concordou. Disse que aquele local era também local de trabalho e que nem mesmo as louvações, agora quase desesperadas da mulher do cachorro, teriam o poder de alterar a ordem pública estabelecida.

 

                            Voltou a luz e o elevador começou a funcionar.

 

                            Alguém suspirou. A devota gritou: “eu sabia que o senhor não me abandonaria”; a ascensorista “perdeu” o descanso; o nôno, ajudado por todos, pegou o seu guarda-chuva e foi embora sem nada a dizer.

 

                            O homem de gravata e a mulher de óculos escuros saíram juntos, pois a história não pode parar.

 

NO FIM

 

                            É só o fim!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


VENCENDO OS MEDOS





                            Na semana em que morreu Celso Blues Boy, um dos grandes que remanesciam da década que perdeu o condutor, assisti uma nova entrevista do filósofo francês Luc Ferry, que falou especialmente sobre os medos e como enfrentá-los ou, quem sabe, vencê-los.



                            Discorrer sobre “medos” de uma perspectiva patológica e metafísica foi a proposta básica da palestra. Não por coincidência o mediador e entrevistador era um médico psicanalista.



                            Disse Ferry, em outras palavras, que a angústia patológica, uma vez tratada adequadamente, através da psicanálise ou de métodos correlatos, caminhará para uma eventual cura. Quando esta cura foi detectada, onde se atinge o exato ponto de equilíbrio entre as razões do tratamento e as consequências deste, faz nascer, automaticamente a angústia metafísica, ou seja, a cura não traduz exatamente uma cura.



                            Se patologicamente o estado perseguido foi atingido, os nossos males, ou a angústia metafísica, como por exemplo, o medo da morte ou da perda inevitável de um ente querido, faz com que permaneçamos num estado de medo invariavelmente sem transposição e não haja como vencer tal obstáculo.



                            Portanto, a palavra cura na acepção do seu sentido talvez nunca tenha guarida, pois, lançar mão de um estado aceitável patologicamente não desfaz a angústia criada a partir do ingresso da filosofia ou da metafísica.



                            Ferry percorreu também por outros cantos do processo. Disse que não se deve casar por amor ou a partir deste, porque tais institutos são incompatíveis entre si, posto que, um anula o outro. Relembrou que os casamentos antigos eram sempre por interesse: patrimoniais, por nomes e sobrenomes, sendo que a escolha se deu a partir das revoluções e evoluções, onde o cidadão, a partir do recebimento de um salário que o desprendia do cordão umbilical familiar, pode optar, entre o arranjo e o desejo. Porém, esta deverá ser outra história.



NO FIM



                            Concordo com o Mário Quintana: a morte sempre aparece pontualmente na hora incerta.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012


O QUE SERÁ?



                  

                            Ando sem inspiração, mas não perdi a oportunidade de presenciar um episódio sui generis. Estou no elevador quando foi solicitado à ascensorista para “apertar no nono”. Evidente que a referência era ao andar e não, como alguém pensou e agiu, ao apertar no pacato senhor que estava por lá.



                            Aliás, o elevador é um local estranho e já adianto que não gosto. Talvez por que numa oportunidade tive o privilégio de ficar quase uma hora trancado no interior de um na companhia de pessoas igualmente estranhas.



                            O objetivo seria o 10º andar. Já “arrancamos de soco”, no prenúncio de que algo estava fora dos trilhos. Não passamos do 3º andar, provavelmente entre este e o imediatamente posterior, e tudo parou, o elevador, o barulho, a conversa e as luzes, estas de funcionar, obviamente.



                            Elevador espaçoso. Como sempre, cheio de pessoas e objetos, com o agravante de estarmos num dia chuvoso, onde os guarda-chuvas se apresentavam com uma importância proporcional a todos os demais, objetos e pessoas, depositados no interior do “veículo”.



                            Parado o deslocamento, iniciada as novas conversas. As primeiras sobre os motivos do blecaute, passando pela claustrofobia, pelo atraso no compromisso, pelo “debaixo é o meu” e pelo tempo que ficaríamos nesta condição.



                            Não estava tão quente, porém começava a ficar. Veio o aviso de que o elevador sempre “trancava”, independente da condição, dia, horário ou mesmo número de pessoas em seu interior.



                            Mas, o pior: poderia demorar mais de hora para que o problema fosse solucionado. O nôno começou a suar. O elevador a balançar. O de gravata a olhar para o relógio, mesmo que o escuro não permitisse. Alguém falou sobre os herdeiros. Uma disse que seu cachorro estava sozinho. E, eu, só pensando que aquela joça poderia despencar a qualquer momento.



                            A continuidade e como tudo terminou ficará para o futuro ou na imaginação de quem quiser.



NO FIM



                            As experiências nos tornam eficazes.

O BOM, O MAU E O FEIO                                                        





                            Eram três: o Bom, triste e melancólico; o Mau, alegre e contagiante, e o feio, que era só Feio.



                            Encontraram-se numa espécie de quermesse, daquelas clássicas, contudo sem conotação religiosa. Ou, talvez, a religiosidade fosse latente, porém em sentido diverso.



                            O Bom estava lá pela primeira vez; o Mau sempre por lá estava; o Feio, apesar de insistir, não tinha estado mais do que três ou quatro vezes.



                            As mesas estavam postas perpendicularmente, ao passo que o Bom enxergava o Mau, que enxergava o Feio, que não enxergava ninguém, porque, além de Feio, havia um pilar que fora construído exatamente em seu campo de visão.



                            Havia danças, bebidas, conversas altas e risadas estridentes, sendo o ambiente com mais fumaça que a Av. Afonso Pena enquanto o churrasco matutino de todos os domingos.



                            O Bom com nada se agradava. O Mau parecia que tinha saído da prisão, pois exarava felicidade. O Feio continuava sendo somente Feio.



                            A vida se desenvolvia naquele local, como a vida se desenvolve em locais como aquele. Todos são amigos, sendo que os poucos que assim não consideram são convidados a não permanecerem.



                            Há passagens, há encontros, tudo naturalmente orquestrados por fatos etílicos e por uma sensualidade que pairam sobre o ar. Que navega da retina até os porões obscuros da mente. Que indica o futuro e reparte a esperança.



                            Muitos lá se confessam. Claro que de uma forma diferente daquela que todos lembram. A entrega dos segredos, que a religião - da sua maneira de recepcionar tais segredos - sempre alimenta como carga e consequência, vagam e gravitam pelo ar, sem qualquer resistência do pecado, do certo ou do errado.



                            O Bom permaneceu inerte por toda a noite. O Mau se deu bem, pois saiu cedo e aos braços da ilusão que visualizou quando ainda lançava à garganta os primeiros goles daquilo que seca a resistência.



                            O Feio, bom o Feio não ultrapassou o pilar, continuando na sua circular jornada que sempre evitou um passo fora do círculo.



NO FIM



                            Não seja aquele que anda sempre pela mesma rota.