ELEVADOR, A CONTINUAÇÃO
Foram
muitos pedidos, até em número surpreendente diria, sem desconhecer, no entanto,
que concentrados em duas ou três pessoas, o que naturalmente não retira a
importância da postulação.
Lembro
que estávamos depositados e presos dentro de um elevador, entre andares, num
dia chuvoso, em ambiente aceleradamente quente, com os nervos iniciando um
processo de afloramento intocável, no escuro e com a expectativa de
permanecermos nesta condição por aproximadamente uma hora.
Passou
esta hora. A vida se manteve exatamente como estava naquele local antes de tudo
parar. O nôno sentou. O de gravata, aproveitando, como podem aproveitar alguém
que está de gravata, e iniciando uma conversa com a senhora de óculos escuro, a
qual se fixou entre os compromissos que seriam perdidos e a possibilidade de um
café, um chá, uma caipirinha, uma taça de vinho, um chope, ou qualquer coisa
possível após tudo isso ser vencido. A ascensorista, acostumada, aproveitou
para adiantar a “dormidinha” diária. A do cachorro, que se apresentava a
mais incomodada, dizia que ninguém se dava conta da gravidade da situação e que
uma tragédia era iminente. Sugeriu uma reza.
O nôno
concordou, mesmo que não reunisse mais forçar para levantar às mãos. A que
estava preocupada com o destino dos seus bens, pegou o celular e ligou para o
seu advogado. O de gravata já estava respirando o mesmo ar que a mulher de
óculos escuros buscava trazer aos pulmões. A ascensorista começou a dizer
palavras irreconhecíveis, mas que diziam respeito ao desrespeito ao direito de
alguém descansar com os olhos fechados. A que “puxou a ajuda dos deuses”
começou a chorar e a pedir ajuda divina neste momento de provação. Que todos
eram pessoas boas. Que não poderiam ser eles os “escolhidos”.
O velho,
mesmo fora do seu “andar”, do seu “longo andar”, observou que daquilo tudo
poderia ser tiradas algumas conclusões, como: a vida é dura; elevadores para
idosos deveriam ser individuais; que em momentos de emoção os sentimentos
florescem de maneira mais honesta; e, por fim, que não permitiria, apesar de
estar enxergando quase nada, qualquer atitude sexual dentro do elevador, pois
seus anos, seus parcos cabelos brancos e, notadamente, sua visão de mundo deveria
ser preservada.
A
ascensorista concordou. Disse que aquele local era também local de trabalho e
que nem mesmo as louvações, agora quase desesperadas da mulher do cachorro,
teriam o poder de alterar a ordem pública estabelecida.
Voltou a
luz e o elevador começou a funcionar.
Alguém
suspirou. A devota gritou: “eu sabia que o senhor não me abandonaria”; a
ascensorista “perdeu” o descanso; o nôno, ajudado por todos, pegou o seu
guarda-chuva e foi embora sem nada a dizer.
O homem
de gravata e a mulher de óculos escuros saíram juntos, pois a história não pode
parar.
NO FIM
É só o
fim!