Seguidores do Victor Hugo

Páginas

Total de visualizações de página

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

SENHORAS


                            Estavam em duas. Uma em sua cadeira de balanço; outra em sua cadeira. Ambas conversavam pelo tempo e para o tempo. Trocavam curtas palavras. Não se alteravam em qualquer momento, com exceção daquele assunto ainda pendente após mais de 40 anos. Estavam bem e isso se sobressaia.
                            Nenhuma tinha aprendido às artes manuais, como o tricô ou o crochê. Passaram a vida admirando; contando sobre quem difundia tal conhecimento; adquirindo peças incríveis. Porém, nenhuma tinha qualquer material desta linha feito por si. De certa forma, sem dizerem, havia uma pequena frustração.
                            A tarde avançada no ritmo de sempre. A preocupação era quando ou se algum dos netos passaria, mesmo correndo, hoje, pela casa. E se viessem? O que teria para comer? Um bolo, talvez! Não. Não daria tempo.
                            Àquela, sentada na cadeira, se mostrava mais triste. Não havia motivo aparente. Estava até razoavelmente bem de saúde. Mas algo lhe angustiava. Não queria falar. Sempre foi discreta. Até mesmo porque nem sabia o que estava sentindo.
                            A outra, da cadeira de balanço, aparentava, como sempre, mais alegria. Claro, uma alegria interna, representada por pequenos espasmos nos lábios. Queria viver. Precisava continuar sua caminhada. Estava viva, e muito viva. Não poderia esta tarde ser somente mais uma.
                            A tarde passou e nada aconteceu contrariamente ao que sempre tinha acontecido. Cada uma foi para sua casa esperando ao novo e ordinário encontro no dia seguinte.
                            No outro dia, no mesmo local, horário, cadeiras, estava ao assento somente aquela que nunca gostou do balanço. A outra, sua irmã, soube-se depois, não tinha vindo. Nunca mais veio.
                            Passados dias, sentada na de balanço, com um aperto da saudade machucando muito, pensou naquele assunto e, sem esboçar qualquer reação, apertou às mãos e teve a certeza que tudo era muito pequeno.
NO FIM
                            Não deixe ficar tarde.
                                     


                            

Nenhum comentário: