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quarta-feira, 10 de maio de 2017

APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO



                            De minhas predileções musicais, fosse para citar entre os maiores; fosse para espremer necessariamente qual a nata que permaneceria, sem qualquer oscilação, sempre estaria Belchior.
                            Sempre pensei que ele nasceu e morreu nos anos 1970. O que ele produziu nesta década não é possível ordinariamente ser repetido. Tanto isso é verdade que sua obra, com exceções pontuais, reside desta época, e permanece tão atual como nunca. Repete-se a todo o momento e permanece tão viva quanto o foi na origem.
                            A força da letra de suas músicas, que agregadas à melodia tornavam recorrentemente os dias mais felizes, mais agradáveis, para podermos como alucinação suportar o dia a dia e fazer com que nossos delírios sejam experiências com coisas reais.
                            Ou talvez, para que não esqueçamos que a velha roupa colorida é como o passado e já não nos serve mais. Ou, por outro lado, chegar a conclusão que apesar de termos feito tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.
                            A vida, a renúncia é exatamente o que foi retratado em sua obra. Não guardou seus metais. Foi simplesmente e para sempre um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, vindo do interior. Quanta identificação!
                            Não existem mais Belchior. O resultado e o medo de avião ficaram naquele tempo. Tempo que anda por fora ou por dentro do meu coração. Nunca mais acontecerá.
                            Viajava de bicicleta quanto soube da sua morte. Estava naquilo também por conta dele, como Fedro na fantasmagórica obra; como deve ser a vida, leve, solta e talvez com a angústia de um goleiro na hora do gol.
                            Posso esperar o analista amigo meu, ou alertar que o amor é coisa mais profunda que um encontro casual.
NO FIM

                            São poucos. 

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