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terça-feira, 23 de setembro de 2014

CARTA AO PAI




 

                            Kafka escreveu Carta ao Pai em pouco mais do que uma semana. Em pouco mais de uma semana algo para sempre. Em aproximadamente cem páginas tudo o que muitos sentem e não dizem ou não conseguem dizer a quem deveria ouvir.

 

                            Kafka não era mais criança. Pelo contrário. Tinha à época 36 anos e não conseguiu escapar ileso da herança adquirida em vida de nunca poder dialogar com o seu pai.

 

                            Quantos muros se estendem entre um pai e um filho?

 

                            É muito preocupante tudo isso. Quando falta diálogo, muito provavelmente falta quase tudo. O essencial é sentir e agir. Não deixar para depois uma conversa que deveria acontecer sempre, porque razões para “jogarmos o problema no porão” são tantas, que por vezes podemos ficar contaminados e estimulados à inércia, que fatalmente nos levará ao descaso, o qual levará tudo a perder.

 

                            As nuances são tantas que podemos deixar passar entre os dedos a possibilidade de resolver algo simples, e, isso, infelizmente, pode furtar o tempo precioso e a oportunidade.

 

                            Qual a dificuldade do abraço, do beijo, do falar exatamente aquilo que estamos sentindo, se é somente assim que alcançamos a liberdade? É por tal caminho, por este pequeno, estranho e simples caminho que poderemos viver, pois a vida é o que importa.

 

                            Os muros devem ser derrubados. Sei, alguns possuem uma massa tão forte, tão resistente, que o desmanchar é muito longe de ser uma ação simples. Mas, o que é simples?

 

                            Tudo é importante demais para que sejam feitos cálculos. A matemática é outra. Poucos percebem.

 

                            Kafka nunca enviou a sua carta ao pai.

NO FIM

 

                            Liberte-se.

 

 

 

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