O BOM, O MAU E O FEIO
Eram
três: o Bom, triste e melancólico; o Mau, alegre e contagiante, e o feio, que
era só Feio.
Encontraram-se
numa espécie de quermesse, daquelas clássicas, contudo sem conotação religiosa.
Ou, talvez, a religiosidade fosse latente, porém em sentido diverso.
O Bom
estava lá pela primeira vez; o Mau sempre por lá estava; o Feio, apesar de
insistir, não tinha estado mais do que três ou quatro vezes.
As mesas
estavam postas perpendicularmente, ao passo que o Bom enxergava o Mau, que
enxergava o Feio, que não enxergava ninguém, porque, além de Feio, havia um
pilar que fora construído exatamente em seu campo de visão.
Havia
danças, bebidas, conversas altas e risadas estridentes, sendo o ambiente com
mais fumaça que a Av. Afonso Pena enquanto o churrasco matutino de todos os
domingos.
O Bom
com nada se agradava. O Mau parecia que tinha saído da prisão, pois exarava
felicidade. O Feio continuava sendo somente Feio.
A vida
se desenvolvia naquele local, como a vida se desenvolve em locais como aquele.
Todos são amigos, sendo que os poucos que assim não consideram são convidados a
não permanecerem.
Há
passagens, há encontros, tudo naturalmente orquestrados por fatos etílicos e
por uma sensualidade que pairam sobre o ar. Que navega da retina até os porões
obscuros da mente. Que indica o futuro e reparte a esperança.
Muitos
lá se confessam. Claro que de uma forma diferente daquela que todos lembram. A
entrega dos segredos, que a religião - da sua maneira de recepcionar tais
segredos - sempre alimenta como carga e consequência, vagam e gravitam pelo ar,
sem qualquer resistência do pecado, do certo ou do errado.
O Bom
permaneceu inerte por toda a noite. O Mau se deu bem, pois saiu cedo e aos
braços da ilusão que visualizou quando ainda lançava à garganta os primeiros
goles daquilo que seca a resistência.
O Feio,
bom o Feio não ultrapassou o pilar, continuando na sua circular jornada que
sempre evitou um passo fora do círculo.
NO FIM
Não seja
aquele que anda sempre pela mesma rota.
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