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quarta-feira, 22 de agosto de 2012


ELEVADOR, A CONTINUAÇÃO

 

                            Foram muitos pedidos, até em número surpreendente diria, sem desconhecer, no entanto, que concentrados em duas ou três pessoas, o que naturalmente não retira a importância da postulação.

 

                            Lembro que estávamos depositados e presos dentro de um elevador, entre andares, num dia chuvoso, em ambiente aceleradamente quente, com os nervos iniciando um processo de afloramento intocável, no escuro e com a expectativa de permanecermos nesta condição por aproximadamente uma hora.

 

                            Passou esta hora. A vida se manteve exatamente como estava naquele local antes de tudo parar. O nôno sentou. O de gravata, aproveitando, como podem aproveitar alguém que está de gravata, e iniciando uma conversa com a senhora de óculos escuro, a qual se fixou entre os compromissos que seriam perdidos e a possibilidade de um café, um chá, uma caipirinha, uma taça de vinho, um chope, ou qualquer coisa possível após tudo isso ser vencido. A ascensorista, acostumada, aproveitou para adiantar a “dormidinha” diária. A do cachorro, que se apresentava a mais incomodada, dizia que ninguém se dava conta da gravidade da situação e que uma tragédia era iminente. Sugeriu uma reza.

 

                            O nôno concordou, mesmo que não reunisse mais forçar para levantar às mãos. A que estava preocupada com o destino dos seus bens, pegou o celular e ligou para o seu advogado. O de gravata já estava respirando o mesmo ar que a mulher de óculos escuros buscava trazer aos pulmões. A ascensorista começou a dizer palavras irreconhecíveis, mas que diziam respeito ao desrespeito ao direito de alguém descansar com os olhos fechados. A que “puxou a ajuda dos deuses” começou a chorar e a pedir ajuda divina neste momento de provação. Que todos eram pessoas boas. Que não poderiam ser eles os “escolhidos”.

 

                            O velho, mesmo fora do seu “andar”, do seu “longo andar”, observou que daquilo tudo poderia ser tiradas algumas conclusões, como: a vida é dura; elevadores para idosos deveriam ser individuais; que em momentos de emoção os sentimentos florescem de maneira mais honesta; e, por fim, que não permitiria, apesar de estar enxergando quase nada, qualquer atitude sexual dentro do elevador, pois seus anos, seus parcos cabelos brancos e, notadamente, sua visão de mundo deveria ser preservada.

 

                            A ascensorista concordou. Disse que aquele local era também local de trabalho e que nem mesmo as louvações, agora quase desesperadas da mulher do cachorro, teriam o poder de alterar a ordem pública estabelecida.

 

                            Voltou a luz e o elevador começou a funcionar.

 

                            Alguém suspirou. A devota gritou: “eu sabia que o senhor não me abandonaria”; a ascensorista “perdeu” o descanso; o nôno, ajudado por todos, pegou o seu guarda-chuva e foi embora sem nada a dizer.

 

                            O homem de gravata e a mulher de óculos escuros saíram juntos, pois a história não pode parar.

 

NO FIM

 

                            É só o fim!

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