Entre olhares,
pequenos e nervosos goles de café, que, como sempre, apesar de muito quente, se
mantinha ordinariamente fraco, após ajeitar pela décima vez os óculos nos
últimos minutos, respirando fundo, disse: não sei por onde começar. Essa também
foi uma dificuldade grande. Dependendo de como iniciarei chegarei ao final.
Preciso ter cuidado para nada revelar antes de que todas as palavras chequem
aos seus ouvidos no momento e na cadência exata. Não posso errar.
Acho que você me
entende, não é? Olhe muitos dos nossos retratos, que os jovens chamam hoje de
foto e de algo mais, que apesar de terem partes vencidas pelo tempo,
provavelmente como alguns de nossos órgãos, e isso deu-me a força que
precisava.
Talvez você esteja
pensando que essa demora tenha o condão de justificar algo. Mas, não. É
preciso, como já lhe disse, que as coisas sejam colocadas em seus exatos
lugares. Não quero mais esse fardo. Eu preciso continuar lutando, mas também
tenho que me desfazer dessa carga que corrói. Eu tenho que alcançar a
liberdade.
Você está preparado?
Algum problema? Alguma pergunta
preliminar? E não adianta pedir para eu acelerar ou embrabecer pelo ritmo que
imprimo. Está sendo tão difícil quando o foi no dia em que juntei mortos. Sim,
como você sabe, eu estive lá também.
É isso, agora até
parece ficar mais claro, que enfrento. Minhas dores que teimam em visitar-me
por todos esses dias são especialmente de lá. Da terra que ainda vejo. Do som
que ainda escuto. Do silêncio que ainda me acompanha. Entende por que isso é
difícil para mim?
Ele dá uma pequena
olhada para os lados para certificar a ausência de qualquer outro, larga a
xícara na mesa, recebe o calor do sol em seu rosto, tem um pequeno desconforto
no estômago, engole à seco, e fala.
NO FIM
Os nossos fantasmas.
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