Estavam reunidos no
mês do “cachorro louco” todos aqueles que também estiveram juntos no inverno de
95. Quase todos com menos cabelos e mais barriga. A única unanimidade é que
ninguém parecia ser mais o mesmo.
Tudo caminhava de
maneira ortodoxa e ordinária até que Justino, no alto de sua proficiência
poética, lascou: alguém mudou sua predileção sexual? Foi um espanto geral.
Houve um silêncio ensurdecedor. Carlinha deixou cair o copo. Martino correu
para o banheiro. Todos atônitos, até que Pedrinho, filho da Marucha e Natanael,
disse: o que é predileção? Todos respiraram, por um momento, aliviados.
Amélia, que era a
professora de todos, por isso também a mais experiente naquele reencontro, disse
que Justino só poderia ter visto a consolidação de sua loucura, da qual ela
nunca duvidou, para fazer uma pergunta daquelas. Acrescentou: ele precisa de
ajuda.
Patrícia, que sempre
foi a musa do grupo, deu uma leve risadinha com um pequeno movimento do lábio
inferior e cutucou Japinha: acho que a noite promete!
Justino, mesmo para
desconforto de alguns, continuou. Disse que não estamos mais em 1995 e que 20
anos são duas gerações e isso leva novas perguntas.
Antes que alguém
pudesse frear o ímpeto e tentar de alguma forma se oferecer para levar Justino
passear, começou a tocar no pen drive,
que ninguém sabia de quem era, Dolores Duran e a música Por Causa de Você. Todos se olharam, mesmo aqueles que não queriam.
Ninguém mais falou. “Entre, meu bem, por
favor; não deixe o mundo mau lhe levar outra vez; me abrace simplesmente; não
fale, não lembre, não chore, meu bem....”.
Amélia, que não mais ouvia
direito, porém sabia tudo, perguntou se era Maysa. Pedrinho disse que a profe já tinha falado a palavra preconceito
na escola. Patrícia continuava ao telefone. Matino não apareceu mais. Marucha
convidou o marido para irem embora.
Justino, que já
ultrapassava a sexta dose, pensou em voz alta: deveria ter colado mais.
NO
FIM
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